O estímulo que falta

Há alguns dias, em visita a uma academia da força aérea brasileira, reparei em um cadete bem mais rechonchudo do que os demais, que corria sôfrego e suado junto com um superior, em horário em que os demais se dedicavam a estudos. “Está pagando castigo, provavelmente por estar fora de forma”, disse o oficial que me conduzia pela visita.

Comentei que deveria estar sofrendo, mas que, ao menos, ele tinha uma boa motivação para perder peso: ordens superiores, colegas em excepcional forma física, horário para cumprir seu desafio e um personal trainer que não largava de seu pé. Assim, qualquer um entraria em forma em pouco tempo.

Mudar hábitos é um desafio, mas torna-se uma tarefa mais fácil quando somos estimulados pelo ambiente que nos rodeia. É desse estímulo que a classe média brasileira carece, quando o assunto é colocar as contas da família em ordem. A educação financeira, que antes faltava, já está presente nos jornais, em cartilhas de bancos e nas escolas de nossos filhos. Hoje, brasileiros estão conscientes dos erros que cometem ao comprar por impulso, ao sucumbir à sedução dos financiamentos e ao usar o caro limite do cheque especial. Querem mudar, mas não encontram estímulo para isso.

Diz o dito popular que, quando achamos que todos à nossa volta estão errados, é porque provavelmente os errados sejamos nós mesmos. Então, como abandonar o mau hábito das dívidas, quando, segundo a Fecomércio de São Paulo, 62% dos brasileiros estão endividados? Como ter peso na consciência ao usar o cheque especial quando, em uma roda de chope, brinda-se a chegada do fim do mês e a entrada no vermelho, como se fosse um simples fato da vida?

Nos assuntos do dinheiro, maus hábitos estão mais do que disseminados, cegando-nos para a necessidade de mudança. Veja se algum desses comportamentos, bizarros do ponto de vista das finanças, não faz parte de sua vida:

– entrar no vermelho e ter no armário ou na dispensa produtos adquiridos e não usados;

– pesquisar pelos financiamentos mais baratos mas, por causa deles, entrar no cheque especial com frequência;

– comprar títulos de capitalização como se fossem investimento;

– comprar uma cota em consórcio como se estivesse investindo;

– acreditar na loteria como a solução para seus problemas;

– contratar um seguro para melhorar o relacionamento com o banco, e não para proteger a família;

– contratar seguro de automóvel com cobertura mínima contra terceiros;

– emprestar o nome para parentes conseguirem crédito;

– assumir prestações sem ter a certeza de que haverá salário para pagá-las.

São apenas alguns exemplos de práticas enraizadas na rotina das famílias brasileiras, que pesam no bolso da maioria e tornam inviáveis o consumo de lazer ou o planejamento da aposentadoria.

Para mudar esses hábitos, é preciso mais do que boa vontade. É preciso reconhecer que a maioria erra, e que ao tentarmos mudar seremos bombardeados por estímulos contrários a nossas intenções. Como sair do vermelho com uma balada a menos no fim do mês, se seus amigos estarão todos na balada e, pior, também no vermelho? Melhor chorar junto do que sofrer mais – ao menos por algum tempo – para acabar com o problema?

O caminho é, como sempre enfatizo, conversar mais sobre dinheiro. Se você tem um desafio a enfrentar e sabe que esse desafio pode ser também encarado por uma pessoa próxima, será mais fácil, para ambos, enfrentá-lo em grupo. É nesse sentido que o debate sobre educação financeira constrói novas realidades em escolas, igrejas, condomínios e ambientes de trabalho. Mais do que disseminar a informação, o objetivo deve ser o de estimular transformações coletivas.

Aliás, se entre seus objetivos está também o de perder aquela barriguinha que tanto incomoda, que tal convocar alguns amigos para dividir com você a conta do personal trainer?

GUSTAVO CERBASI Especialista em Inteligência Financeira www.gustavocerbasi.com.br
Voltar

Compartilhe com seus amigos

1 Comentario(s)

Rafael Farias disse:

nOVOS “! ARES ” tbm éum estimulo.

Comente esta publicação:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também