Beleza com Oscar Wilde

Gosto de refletir e repensar frases de grandes pensadores. Sejam eles filósofos, poetas do povo ou grandes literatos. 

Um dos maiores aforistas que conheço é o célebre escritor Oscar Wilde (1854-1900). Gênio da literatura oitocentista, artista irrequieto, polêmico, anacrônico de sua própria época, Wilde foi o melhor exemplo de associação entre o Decadentismo – um movimento crítico que denunciava certo pessimismo sobre os caminhos da modernidade – e o Esteticismo – um movimento artístico de culto ao belo, à “arte pela arte” acima de quaisquer outros valores. Esse último é o foco de nossa coluna, até aqui brevemente introduzida por alguns pontos conceituais.

Wilde liderou, em suas obras e com sua atitude, o discurso sobre como devemos procurar coisas belas em nosso cotidiano. Mais do que isso: construí-las. Estetizar a vida! 

Em uma de suas frases, Wilde afirmou que “O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo”.

Onde está a nossa responsabilidade individual em fazer o que é belo?

Queremos uma vida perfeita, realizar sonhos, encontrar pessoas perfeitas para dividirmos nossas vidas. Queremos abastança, paz, felicidade. E nos confrontamos, dia após dia, com dissabores e desafios que parecem nos convencer de que esses alvos parecem distantes. Será mesmo que estão?

Wilde teve uma vida muito difícil. Usou de ironia, mordacidade e poesia para dinamitar valores morais hipócritas e tendenciosos de sua época. Porque entendia sua arte como um veículo capaz de quebrar barreiras e abrir caminhos para outras pessoas de sua época. Foi perseguido, processado por sodomia – uma condenação moral e preconceituosa possível no século XIX -, preso e exilado. Mas evocou sua paixão pelo belo e nos deixou uma espécie de herança ideológica de como devemos tripudiar dos males e desenhar a felicidade, fazendo a vida parecer mais bela do que aquilo que ela mesma nos sugere.

Sua obra clássica “O Retrato de Dorian Gray”, manifesto máximo de sua ode ao belo, mostrava o paradoxo da beleza que não é beleza: aquela que se posterga por fora, mas embolora por dentro. Ambicioso e devotado à sua própria imagem pintada no quadro do artista Basil Hallward, Dorian embriaga-se de si, faz um pacto para se manter belo e jovem, mas o quadro precisa ser escondido porque a imagem pintada apodrece e revela o monstro interior de cada uma de suas maldades.

Penso que essa fábula fantástica da vida moderna fala muito sobre o belo exterior e o interior. Sobre como muitas vezes escondemos nossas dores sob sorrisos. Não se trata de constituir uma aparência: o belo – o ideal de uma vida que nos sugira “a arte pela arte” – é uma construção que deve ser trabalhada interiormente, em nossa consciência e em nossos valores, antes de se configurar como algo externo. Ora vejamos: um esteta como Wilde cria um personagem – Dorian Gray – que, sendo a própria beleza encarnada, torna-se um monstro revelado por um quadro. Ele faz a crítica daquilo que ele mesmo defende. O quadro é uma representação literária da consciência, da verdade, do que não se pode calar. O final da obra revela que não será possível construir um ideal estético de vida se não houver uma construção interior. E, sem esse equilíbrio moral e emocional, fica mais difícil construir a felicidade. O quadro, que era orgulho e alegria para Dorian Gray, torna-se seu algoz, seu inimigo, seu drama pessoal. Ele precisa esconder a verdade que não quer enxergar para si mesmo e menos ainda revelar aos outros!

As obras literárias são retrato de uma época. Mas algumas delas, como esta aqui citada, são atemporais e nos deixam muitas lições.

Temos uma parcela muito grande de responsabilidade sobre a beleza e a felicidade que queremos para nossas vidas. Doutrinar nossos pontos de vista, enxergar o lado melhor das coisas e exercitar as virtudes em detrimento dos vícios é um ponto de equilíbrio para nosso caminho de evolução. A doutrina do livre arbítrio é mais que um preceito religioso: é uma delicada mensagem de que o Universo – na pessoa de um Deus ou na forma como cada um o concebe – espera de nós uma atitude de construção e reconstrução, enfrentamento e disposição. Se só tivermos olhos para a crise e não para as oportunidades; se nossos medos não nos levarem ao adestramento de nossas melhores habilidades; se nossa fome não nos levar ao aprendizado para fazer o pão…que teremos aprendido de cada fraqueza para nos levantarmos mais fortes?

Quando Wilde falava que o Estado faz o útil e o indivíduo faz o belo, ele nos mostrava que o burocrata procura simplesmente as coisas que funcionam, enquanto o autêntico vive daquilo que o encanta! 

Encantamento é felicidade!

Wilde, esse personagem controverso que transcendeu a própria literatura e se fez personagem numa obra aberta, ainda nos deixaria uma incomparável lição de vida através de outra reflexão. Disse ele: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.

Vamos viver mais e de forma mais bela!

Estamos em rede…e a nossa rede é de FELICIDADE!

– Hélio Ricardo Rainho

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4 Comentario(s)

Susana Isabel Ribeirinho Fortunato disse:

Bruna. Simplesmente adorei!!! Adoro os pensamentos que você compartilha conosco. Todos eles nos fazem passar a imagem da sua alma.Uma alma iluminada e cheia de luz. ❤🙏

Taty Souza disse:

Sejas bela por dentro, para que sejas por fora… Você estampa escancaradamente seu próprio artigo, pois vives o que pregas!
Assisti o filme “O Retrato de Dorian Gray”
https://g.co/kgs/uzQmLB
Lerei o livro agora!

Todo o amor que houver nessa vida para você Bruna!🙌🏻💜🙏🏻

Ana rosa Rodrigues disse:

adorei

Solange maia disse:

E o maximo!Adoro os pensamentos que voce compartilha com nos.

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