Famílias e casamento

Dias desses fui convidada para ser a cerimonialista num casamento. São amigos queridos e por conta disso cuidei bastante na escolha dos temas que falaria. Falei sobre três pontos: amor e relacionamento – algo que, para mim, são coisas diferentes; o compromisso que se assume perante o grupo social selecionado para estar presente ao casarmos; e por último, os elos familiares que se criam ao unir dois seres humanos e seus familiares. É sobre este último item que escrevo hoje para refletirmos juntos.
 
O conceito de família tem sido bastante discutido e trazido à tona nos últimos tempos. Seja para reprimir novos formatos de família, seja para revalorizar, seja para desmistificar a sua simbologia. Considero tudo válido. Em tempos de transição de valores sociais, importante ouvir diferentes pontos de vista, arejar, refletir e decidir a partir desse novo entendimento. Novos tempos têm essa potência de expansão e limpeza, deixando para atrás modelos que não nos servem mais. Sempre houve e sempre haverá quem avança e quem foca na manutenção de formas antigas. Nesse atrito produtivo, é que avançamos e nos desenvolvemos como humanidade.
 
Ao unir um casal, estamos unindo duas famílias. Pode ser pela paz, pode ser pela guerra ou negação. Provavelmente, na maioria dos casos, será pelo amor. O que não significa que será fácil. Cada família traz consigo sua própria história. Cada um vê o mundo a partir de janela de percepção. Os valores e crenças que ela foi entrelaçando ao longo da sua história criaram a janela por onde veem e levam a vida. É o que chamamos de visão de mundo.
 
É inevitável que essas visões sejam diferentes. Considero que radica aí a riqueza de tudo. Os grupos mais fechados nas suas verdade, e por isso, menos arejados, valorizam o casamento entre iguais. É a forma que encontram de preservar e reproduzir sua visão de mundo. Eu nasci com essa crença. Ouvia dizer que tínhamos que escolher pessoas do mesmo nível intelectual, econômico, social. Na época, como a maioria com quem convivia era católico, não se discutia  questão da religiosidade. A minha realidade era católica.
 
Com os anos, entendi que, esses aspectos tornar as coisas mais fáceis de se levar, ao mesmo tempo que te fecham em bolhas. Foi amadurecendo e estudando sobre nós como sociedade, e entendi que esse é um perigo. Ficar fechados numa única realidade dificulta observar o mundo com maior compreensão. No atrito crescemos. É no desconforto que nos mantemos vivos, despertos. Esse processo não precisa ser duro e cruel – embora alguns casos o são. O que considero importante, é entender que são as dificuldades que nos desafiam e costumam nos fazer crescer, desenvolver. São uma boa prova de amor e resiliência. Une ou separa o casal.
 
Hoje, aposto mais nas relações que possuem valores similares e que provavelmente terão crenças diferentes. Os valores regem a ética com que vivemos a vida. Sou da linha de estudos que considera a moral uma ação social e a ética um ação individual. As crenças dão vida aos valores. Dão forma e dirigem nossa forma de interpretar os valores no dia a dia. Como o pensador contemporâneo, Richard Barrett disse, valores unem as pessoas. Crenças as separam Os valores nos unem.
 
Quando numa relação a dois, nossas visões de mundo – e os interesses que vêm junto – estão alinhados costumamos acreditar que encontramos a pessoa perfeita para nós. Costumamos esquecer que junto com ela vem a família. E que nem sempre os valores e suas crenças são idênticas. Nós somos produtos desses valores, mas cabe a nós decidir se queremos reproduzi-los integralmente, parcial ou mudar radicalmente. Muitas vezes nos distanciamos um pouco do modo como a família opera seus valores.
 
Muitos casais modernos acreditam que podem se separar da família com o simples fato de não conviver com eles. Vivem fugindo do convívio familiar. Ledo engano. A matriz familiar que nos formou levamos conosco até morrer. Ela está na forma como vemos a vida. E ela guiará nossa relação. Seja consciente ou inconscientemente. Seja na negação ou na aceitação. Conviver com a família ajuda a trazer à consciência o que guia o núcleo familiar, e portanto está em nós. Ao observar o outro, trazemos à nossa consciência o que pode estar conduzindo nosso comportamento. Podemos fazer escolhas.
 
Foi conhecendo os pais do meu marido e suas famílias que compreendi de onde ele tinha vindo. E o que considero mais importante: como ele lidava com essa herança de valores e crenças. Se optava por enxergar ou não as características que não combinavam com nossa vida em comum. Ai que surge o distanciamento saudável da herança familiar. E esse distanciamento não precisa ser físico.
 
Como disse no casamento que realizei, somos o elo forte dessa união entre familiares. Por isso precisamos de lucidez e distanciamento para poder manter essa união que tende a ser diversa e por isso, nem sempre fácil. Compreender quais traços e crenças nos guiam, mesmo inconscientemente; quais questões familiares fazem parte desse grupo social e que nos afetará mesmo que estejamos fisicamente distantes; nos ajuda a fazer escolhas conscientes de quais crenças e valores iremos passar para frente e trazer para a união. E quais deixaremos de fora de nosso lar. Mesmo sendo o elo amoroso que une universos distintos. 

 

NANY BILATE Pensadora intuitiva, estuda e escreve sobre os valores e crenças sociais da contemporaneidade; fundadora da #behavior, uma Think Tank http://www.behavior.com.br/blog

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