Como comecei a cozinhar

Logo de cara vou confessar um defeito: sou muito impaciente. Já fui pior. Já fui muuuuito impaciente.  Hoje sou uma pessoa zen vivendo um ritmo frenético, cercada por projetos loucos, gente alucinada, espremendo horários dentro de uma agenda insana. Em resumo: uma pessoa zen dentro de uma centrífuga.

O problema de gente impaciente é que é um grande desafio realizar trabalhos manuais como bordar, cortar um tecido reto, fazer origami, uma colcha de retalhos, enfeitar delicadamente um bolo e assim por diante. E aí você fica com aquela sensação de não ter jeito pra isso.

Fui tudo, menos uma garota prendada. Crochê? Tô fora! Aulas de trabalhos manuais? Vou ao cinema. Lia um monte de livro, escrevia, tirava fotografias, até desenhar eu conseguia, mas era meu limite. Uma vez nas férias fui com um monte de amigo para Ubatuba. A geladeira cheia de mantimentos… para serem feitos.  Eu não sabia fritar um ovo. Por alguma razão, minha amigas tinham uma infinita esperança de que eu pudesse salvar todos de morrer de inanição. Mesmo sabendo que eu não sabia nada, elas contavam comigo.

Depois de passar a manhã surfando e depois que os pacotinhos de biscoitos terminaram, todos me olharam com ar de desolação, como se  esperassem de mim algum sinal de liderança. Eu não tinha a mínima ideia do que fazer. Mas por isso tudo e mais a fome, tive que arriscar. Entrei na cozinha como quem entra num laboratório em Marte. Abri os alimentos como quem precisa detectar qualquer sinal de contaminação. Pedi ajuda, todos pareciam prestativos, dispostos, mas depois de três minutos houve total dispersão.

De repente, vi que precisava me jogar no desconhecido sem medo, naquela certeza de que quando a gente se atira no abismo as asas aparecem. Sem saber cozinhar arroz, resolvi transformar um pobre peixe congelado em alguma coisa que a gente pudesse comer com batata, couve e cebola. A única coisa que sabia é que precisava descongelar.

Tudo o que aprendi foi com esforço e em função da minha impaciência. Fui obrigada a passar por infinitos treinos de paciência. Hoje sei o que a paciência significa. Se o peixe ficou bom? Não sei. A fome era tamanha que deixou a impressão de ter sido uma espécie de sucesso. E com esse incentivo fui me especializando em molhos. Hoje faço com facilidade. Trabalho na paciência amorosamente. Vou de ikebanas a jardins zen. Aprendi a olhar demoradamente para o céu, a contemplar o jardim e prestar atenção nas pessoas. Plantei árvores e as vejo crescer com felicidade. Arrumo gavetas perfumadas, separo minhas roupas pelas cores.

E por uma dessas ironias do destino escolhi fazer uma das coisas mais difíceis do mundo: escrever roteiros de cinema. Ofício que exige, por sua natureza cheia de complexidades, uma infinita paciência, em que uma pequena mudança pode desmanchar toda a trama e implica em começar tudo de novo, como uma Penélope moderna.  Me tornei, com muita dificuldade, uma mulher prendada.

Escrevi num livro meu que o caos é a ordem espontânea da natureza. Para criar a gente precisa dar ordem ao caos, uma ordem particular, essa é a criação. O tempo é o melhor mestre que existe.

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1 Comentario(s)

Carlos disse:

A paciência é a mãe de todas as virtudes, pois sem ela não chegamos a lugar algum. As sinto que a vida em si é a escola da paciência, pois quando passamos por testes e provações, na realidade é nossa paciência que está sendo testada.

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