“Liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”

No centenário de Clarice ela está mais viva que nunca. Ela vem sendo comemorada, celebrada, copiada e confundida numa expansão exponencial.

Merece ser eterna porque já era eterna quando a conheci pessoalmente, quando a visitei em sua casa e conversamos longamente. E já era eterna muito antes disso, quando ainda adolescente eu lia sozinha no quarto e seus livros me abriam as paredes para o mundo. Eu era uma menina e os livros eram o meu descobrir a vida, entender, com grande surpresa, que existiam centenas de palavras, milhares de pensamentos, pessoas que eu nem sabia quem eram e que no entanto, eu as sentia tão perto, tão próximas e as amava do ponto mais fundo do meu coração. Não eram estranhos, embora eu nem soubesse seus rostos, nem se ainda estavam vivos, se moravam perto ou se eram de lugares distantes e de outro século. E assim fui aos poucos me informando sobre quem eram esses autores, essas pessoas sem identidade por trás de tantas lindas histórias e frases, de tanta comunhão com as minhas emoções.

Entre eles estava Clarice Lispector, um rosto marcante de uma mulher em preto e branco numa fotografia, que eu olhava tentando desvendar alguma coisa. Ela, a pessoa, permanecia um mistério mesmo que sua alma estivesse tão exposta e revelada no que escrevia. Lembro de madrugadas, eu e minha melhor amiga, ainda adolescentes, de pijama, lendo Clarice. A gente se emocionava e comovida, compartilhava trechos de Perto do Coração Selvagem. Clarice foi de uma generosidade inesquecível. Era imensa, uma alma que saia do corpo e te abraçava. Sua busca de autoconhecimento era tão forte que tudo nela eram perguntas, questionamentos. Ela mesma dizia: “Eu sou uma pergunta”. Acho que assim evoluímos, perguntando. Procurando dentro de nós as questões que nos afligem, que guiam a nossa curiosidade.

Nos orientamos pelas dúvidas que moram no nosso âmago, pelo que não sabemos, pelo desconhecido. Na Mitologia toda a jornada do herói enfrenta o desconhecido. E os deuses sussurram que o maior desconhecido a desvendar habita dentro de nós. Essa é a viagem mais corajosa.

Essa é a grande jornada. Sempre fui tateando por esse caminho, por mais difícil que fosse. Quando comecei a ler Clarice percorri esses passos nos caminhos que ela propunha. A viagem de Clarice era pra dentro. Descobrir esse mundo que habita dentro de nós é tão complexo quanto se lançar no mundo em que habitamos. Requer um exercício paciente de solidão consigo mesmo. As respostas e não todas, é claro, virão devagar, depois que a gente conseguir superar o medo. O medo de nós mesmos, o medo do outro, o medo do mundo. Fui abraçada por Clarice.

Tive a oportunidade de, sozinha com ela em seu apartamento, agradecer cada frase, cada respiração, cada troca que me ofereceu e continua oferecendo para o mundo. Viva, presente, complexa, curiosa, belíssima. Uma das mais lindas mulheres que conheci, das mais profundas, sensíveis e sábias. Obrigada Clarice, por tudo.

 

 

 

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