DO QUE RIMOS?

Tem um verso num dos meus livros que diz: Das liberdades, meu
amor, eu quero todas.
A idéia de liberdade me acompanha desde criança porque fui
criada com esse conceito. Não me deixar intimidar, restringir,
acuar, diminuir. Não me sentir presa, nem obediente ao que não
concordo. Meus pais me ensinaram a me manifestar, defender,
posicionar.
Não é uma tarefa fácil para nenhuma mulher. Requer um esforço,
uma atitude e atenção permanentes. Um estado de alerta e
ataque a qualquer movimento ameaçador.
Requer abrir mão de conforto, segurança e comodidade para
conquistar o próprio espaço e encontrar a própria voz. Com todas
as perdas e danos que isso possa causar.
Dúvidas, decepções, sofrimentos inevitáveis. Um preço caro para
se livrar das amarras, correntes, censuras e auto censuras.
Repressão interna e externa que bloqueiam o caminho.
Mas quero é falar sobre o humor. A força desfraldada e
maravilhosa do humor.
Do que rimos? Quais as coisas que nos fazem rir?
A começar por nós mesmos. Rir do que nos acontece, do que
erramos, do jeito que reagimos é uma ótima maneira de aliviar a
vida.
O pior de uma viagem vai ser sempre o mais engraçado pra
contar pros amigos. Pode ser ruim na hora mas a gente sabe que
um dia vamos rir disso tudo.
O humor quebra barreiras, entra em lugares proibidos. A criança
gargalha com o humor escatológico. O palavrão quebra a rigidez
de certos comportamentos.
Mas desde muito cedo comecei a perceber um tipo de humor que
me incomodava. Era o humor tácito do preconceito e tão familiar
que estava em qualquer programa de TV.
Era a piada sobre o gay, a feia, a gorda e assim por diante,
ridicularizando e ferindo pessoas. Eu era adolescente e não
achava a menor graça nisso.
Hoje muita gente discute a idéia do politicamente correto, sem
entender de fato a extensão que há por trás. O estigma. A marca
indelével nas pessoas que são atingidas por essas flechas de
humor que causam danos irreversíveis.
Se uma piada ri do preço barato de um puteiro de beira de
estrada, está rindo exatamente do que?
O que existe por trás desse humor?
A tragédia da miséria, do machismo, do abuso e violência contra
a mulher.
É bom rir disso?
Não se trata de censura e nem de politicamente correto, mas sim
de humanamente concebível.
Criamos um tipo de humor machista e preconceituoso que se
repete há tanto tempo e se diz libertador.
Não, não é.
Na verdade liberta toda uma sociedade de reforçar um
comportamento tóxico, um preconceito estrutural, uma ferida
social atenuada pela gargalhada.
Criei uma cena no nosso filme O Signo da Cidade, que deu
prêmio de melhor ator ao brilhante Juca de Oliveira. Ele está
numa cama de hospital e pede como último desejo ver uma
mulher nua.
Uma enfermeira se recusa e uma outra aceita. É uma mulher
gorda e a platéia ri antecipando a piada.
Em seguida há um silencio profundo de todos diante de uma das
cenas de maior afeto que já escrevi na vida.
E todos compreendem que não é uma cena de humor, mas de
extraordinária generosidade.
PS- Podem assistir na Netflix.

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