Deixa que eu cuido

Vou confessar: sou uma pessoa exausta. E a razão não é o meu trabalho, nem todas as tarefas e atividades que faço, não é porque me envolvo em tantas coisas ou porque tomo conta e cuido de tudo, não é isso.
Sabe o que me deixa exaurida? O tremendo esforço que faço pra mudar o mundo. Reformar minha cidade, botar em ordem meu bairro, dar melhores condições pras periferias.
Não tenho poder ou cargo público, mas quero acabar com a fome, limpar os rios, preservar as florestas. Quero dar um jeito pras pessoas viverem com dignidade.
Tudo em mim vai do pequeno ao grande, num movimento circular e obsessivo de querer dar um jeito em cada problema que vejo.
Vai desde reformar a calçada, tirar lixo das ruas, dos córregos, dar saneamento básico pra toda população até pintar uma parede carcomida, dar abrigo e comida pra todos os animais abandonados e de alguma maneira organizar o caos em volta.

O que me alivia um pouco do peso dessa força tarefa é ver que tem tanta gente mais competente que defende essas causas.
Facilitam enormemente meu trabalho e eu só preciso me voluntariar pra ajudar, colaborar e fazer campanhas pra divulgar.
Gente que luta contra o desmatamento, planta milhares de árvores, cria parques em áreas carentes. Gente que defende os povos indígenas, as mulheres em situação vulnerável, que luta contra o abuso, o racismo, a homofobia, a misoginia e todos os preconceitos da nossa sociedade.

Olho as coisas desde menina e me sinto responsável por elas. Desvirei muito tatu bolinha agoniado, encontrei lar pra centenas de gatinhos jogados no lixo, vivo em missão desde minha primeira infância. E sei que mal tenho condições de controlar meu cabelo, imagine controlar o que acontece no mundo…
Tudo me dá um inesgotável trabalho diário, querer cuidar das coisas além do meu poder, sobre as quais não tenho o menor domínio, drena muito minha energia.
Muitos anos atrás escrevi um desabafo:
no poema CÉU DE AMIANTO

Não sei resolver o mundo
mal resolvo meu próprio coração
e tudo me consome…

Décadas se passaram e esses versos continuam dentro de mim sem solução. Quero abraçar o mundo, ir resolvendo coisas, causas que me são queridas, que falam ao meu coração e mal sei o que fazer. Continuo carregando essa sensação que preciso cuidar do mundo, gente , bichos, matas e oceanos e dói dentro de mim a minha própria impotência.
Passo por milhares de pessoas desconhecidas nas ruas e tenho a impressão que sei seus sonhos e suas emoções. Sinto que de alguma forma eu poderia ajudar, aliviar, escutar, abraçar.
E no entanto sigo e posso parecer indiferente, quando na verdade me sinto dilacerada por não fazer nada.
Quem tá ao meu lado vive me dizendo que não sou responsável pelo que acontece no mundo, que isso isso parece uma espécie de egocentrismo, que não adianta catar o lixo da praia, que quando eu não vier, o lixo vai ficar lá, que cada um se vira e ninguém precisa de mim.
Eu é que preciso um dia me convencer disso, parar de querer cuidar de tudo e me prometer descansar.

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