As Erínias

Vocês sentem que o mundo anda num momento bem tenso e nervoso? Assim como o planeta esquentou, o sistema reativo das pessoas elevou sua potência de tal maneira, que até mesmo pra falar de paz e amor as pessoas brigam. Falam de solidariedade, mas num tom de ameaça. Falam de Jesus e de ódio na mesma frase e com a mesma ênfase.

A inacreditável falta de noção e bom senso deu lugar a uma tremenda prepotência. E se algum bom senso ainda existe, ele se esconde por medo do senso comum.

Vivemos um tempo em que se estimula essa incitação à cultura do ódio. E essa raiva se desdobra em ondas, em reverberações de um eco que escutamos todos, mesmo quando não queremos escutar.

Todos nós trazemos doses de revolta, indignação e potencial pra algum tipo de rancor, frustração, ressentimento. Cada um por diferentes razões e enfrentando situações diversas.

Na Mitologia Grega, as Erínias eram as divindades que castigavam os mortais por seus delitos. Na Mitologia Romana eram chamadas de Fúrias. Sempre representadas como mulheres pavorosas, de aspecto terrível, com olhos de sangue e cabelos emaranhados de serpentes, com gigantes asas de morcego, chicotes e fogo nas mãos.

Eram elas que perseguiam sem trégua e castigavam eternamente crimes de toda natureza, numa inesgotável sede de vingança. Representam as forças brutas e primitivas da humanidade.

As Erínias viviam nas profundezas do Tártaro, o mundo inferior e mais terrível de Hades, o mundo dos mortos, o tal inferno para onde eram mandados os pecadores.

Elas eram tão poderosas em sua trajetória exponencial do mal, que todos temiam simplesmente pronunciar seu nome. Ninguém evocava essas entidades vingativas e marginais, rejeitadas pelos deuses, com medo de atrair sua cólera. E eram elas que puniam e torturavam os aprisionados, condenados a passar assim o resto da eternidade.

A História nos provou que todo tipo de ódio atrai mais ódio e conduz a grandes tragédias e calamidades. Toda vingança gera novos revides e só perpetua o seu rastro de sangue.

Na guerra mesmo o vencedor sai perdendo um incontável número de vidas. Na filosofia da vendetta, do olho por olho, acabamos todos cegos.

Quando incitamos o ódio e a vingança estamos evocando as Erínias e atraindo toda uma série de consequências de tragédias inexoráveis.

Não existe real satisfação em conseguir se vingar e essa pseudo ilusão de vitória vai mostrar imediatamente graves resultados. O ódio se alimenta de destruição e a destruição cria uma cadeia infinita, um moto perpétuo das dores do mundo.

Disseminar compaixão e empatia, mudar nossos valores e valorizar a felicidade individual e coletiva é o grande antídoto para tantos males.

Resistir ao ódio, não ceder à raiva e não revidar vingança são grandes atos de coragem. São capazes de enfrentar, de neutralizar e vencer as Fúrias. Impedir que as Erínias alastrem o mal dentro de nós, minando nossa saúde e em volta de nós, espalhando terror e miséria no mundo.

Que os mitos nos ajudem a evocar o amor, tão raro e necessário nesse momento.

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1 Comentario(s)

ANNE SHIRLEY SOUTO ALVES disse:

Amei o texto!Me trouxe uma mensagem muito bem contextualizada que enriqueceu meu conhecimento e conduziu a mais uma reflexão! Gratidão por compartilhar!

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