Uma breve história do tarô (do século XV ao século XVIII)

O tarô já possui quase 600 anos de história documentada.  Durante este período, passou por várias transformações, tanto em relação à sua estrutura, quanto em relação ao seu uso. No início, era usado basicamente para jogos de cartas; com o passar dos séculos, passou a ser utilizado como instrumento divinatório e, desde meados do século passado, seu uso como ferramenta de exploração do inconsciente expandiu-se. Atualmente, os três usos coexistem.

A origem do tarô é objeto de muitas discussões. Alguns afirmam que ele originou-se no legendário Livro de Thoth, que conteria a sabedoria mística do Antigo Egito. O que está documentado, no entanto, foi seu surgimento no início do século XV, no norte da Itália, a partir da junção das cartas do baralho mameluco islâmico (que deu origem ao nosso baralho comum, dos quatro naipes, com cartas da corte), com os 22 “trunfos”, atualmente chamados de Arcanos Maiores. Os trunfos, por sua vez, podem ter-se originado a partir do livro do poeta Francesco Petraca, “Os Triunfos”, publicado em 1351.

Durante os séculos XV e XVI, o tarô foi usado nas cortes italianas principalmente como cartas de jogar. O baralho mais antigo que se conhece é o de Visconti-Sforza, comissionado pelo Duque de Milão, Filipo Visconti, e seu genro, Francesco Sforza, e atribuído ao artista milanês Bonifacio Bembo, que teria pintado as cartas na década de 1440. Datam também do século XV o tarô de Mantegna, que usa a mitologia greco-romana, e o Sola Busca, que inspirou a artista Pamela Colman Smith na criação de seu icônico baralho, em 1909.

No fim do século XV, as cartas foram introduzidas no sul da França e seu uso começou a se popularizar, sobretudo depois da invenção da imprensa, em 1450. Os franceses acrescentaram títulos e números aos Arcanos Maiores. A versão francesa do jogo passou a ser conhecida como Tarô de Marselha, independentemente de onde fosse impresso. O exemplar mais antigo desse tarô que chegou até os nossos dias é o do artista Jean Noblet, impresso em Paris, em 1650. Segundo o historiador Robert M. Place, a versão mais bem acabada desse tarô é a de Pierre Madenié, publicada em Dijon, em 1709.

Apesar de haver relatos de seu uso como instrumento divinatório desde o século XVI, foi somente no século XVIII que o tarô passou a ser usado mais amplamente para esse fim. Em 1770, Jean-Baptiste Alliete (cujo pseudônimo era “Etteilla”, uma inversão de seu sobrenome) publicou o primeiro livro sobre o uso das cartas tradicionais como instrumento divinatório: “Etteilla, ou como se entreter com um jogo de cartas”. Alguns anos depois, em 1785, publicou outro livro, “Como se entreter com um jogo de cartas chamado tarô”, em que expôs seus métodos de adivinhação e mostrou como a ordem das cartas poderia alterar o resultado final do jogo. Etteilla teria cunhado o termo “cartomancia”, para descrever o uso das cartas com fins divinatórios e criou o baralho conhecido como “Grand Etteilla”, que teria sido usado pela mais famosa cartomante de todos os tempos: Marie-Anne-Adélaide Lenormand, que, ao chegar em Paris, em 1789, criou um salão de vidência que atraiu os nomes mais famosos da época.

Nesse mesmo período, em 1781, Antoine Court de Gébelin expôs, em um dos volumes de sua série intitulada “O Mundo Primitivo”, sua teoria de que o tarô conteria a chave da sabedoria do Egito Antigo e relacionou, pela primeira vez, os 22 Arcanos Maiores ao alfabeto hebraico, criando uma base teórica que influenciou profundamente os estudiosos de tarô ao longo do século seguinte.

Na próxima parte desta breve história do tarô, veremos como o tarô entrou no século XIX e continuou desenvolvendo-se ao longo do século XX.

(Bibliografia utilizada: “Tarot de Marselha”, de Mary Packard e “Tarot”, de Jessica Hundley)

 

Talita Cardoso Lima Diplomata e taróloga. Usa o tarô para autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. www.tarotdiario.com.br / @tarotdiarioblog
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5 Comentario(s)

Elaine disse:

Maravilhoso e enriquecedor conteúdo! Adorei Talita!!
Muito obrigada por compartilhar seus conhecimentos

Vania Cury disse:

Muito interessante, Talita. Não sabia que o tarô era assim tão antigo. Aguardamos o próximo capítulo!

André Coelho disse:

Adorei conhecer a história do Tarô!

July disse:

Adorei! Achei bem interessante saber que o Tarô sobrevive a tantos séculos! Deve ter muito material de estudo ao longo desse tempo

Glicia disse:

Incrível essa breve história do Tarô!! Adorei!!

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