O Oráculo

Nos bastidores do budismo uma figura se destaca com muita relevância e tem a função de ser o oráculo oficial do governo tibetano. Seu nome é Kunten-lá.

Em diversas religiões e principalmente no budismo tibetano a consulta ao oráculo é um aspecto fundamental no seu dia-a-dia, para predizer o futuro,  solucionar os problemas internos e externos do governo. Na tradição tibetana o oráculo tem a função de ligar o mundo físico com os reinos espirituais. O Mundano com o Sagrado.

No passado existiam espalhados pelo Tibet centenas de médiuns que exerciam esta tarefa. Alguns sobreviveram e guardaram as tradições.  O principal e mais importante é o oráculo do mosteiro de Nechung em Dharamsala, onde se manifesta DORDJE DRAKDEN uma das divindades protetoras do Dalai Lama e do povo tibetano. Originalmente esta divindade surgiu no Tibet como descendente do sábio indiano Dharmapala. Durante o reinado do rei Trisong Dretsen, no oitavo século a.C, ele foi designado pelo mestre tântrico indiano Padmasambhava, o supremo guardião espiritual do Tibete, como protetor do mosteiro de Samye. Sua relação com os tulkus catalisou com o Segundo Dalai Lama, com quem desenvolveu uma relação muito próxima. Desde então foi também designado como protetor pessoal de todos os Dalai Lamas na atual historia do Tibete.

O oráculo atual é o simpático monge Thupten Ngodup. Tive a oportunidade de conhecê-lo na Índia e desde então quando viajo a Dharamsala fico hospedado nas imediações de seu mosteiro. Sua morada é o mosteiro de Nechung, localizado entre Dharamsala e Mcleod Ganj no estado de Himachal Pradesh no norte da Índia onde se encontra em exílio o governo tibetano. O venerável Thupten Ngodup recebeu o titulo de Kunten-la que significa honorável base física. Nasceu no Tibet em 1958. Fugiu para o Butão na metade dos anos 60. Em 1971 ingressou para o mosteiro de Nechung e conclui seus estudos monásticos em 1981. Com a morte em 1984 do antigo médium oficial de Nechung, o oráculo silenciara. Passaram-se três arrastados anos. Na data de 31 de março de 1987 segundo dia lunar do segundo mês tibetano, o Venerável Thupten Ngodup recitando textos de invocações juntamente com outros monges, incorporou e ficou possuído pelo oráculo de Nechung. Tulkus, lamas, regentes e o povo tibetano celebraram o retorno do oráculo. Em nossa ultimo encontro Kunten-lá comentou: “A vida do oráculo de Nechung não é um trabalho fácil, é uma responsabilidade profunda.

O meu serviço é totalmente voltado para o Dharma e o Tibet, o restante não tem importância” “Quando entro em transe não me recordo de absolutamente nada. Lentamente sou possuído e gradualmente me sinto longe da minha identidade interior e espiritual”. Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama comenta em sua autobiografia “Freedom in Exile” sobre a consulta ao oráculo – Muitos tibetanos que se consideram “progressistas” não apreciam o meu uso continuado desse método de buscar a compreensão das coisas.

Faço isso pela simples razão de que quando olho para trás e relembro as muitas ocasiões em que formulei perguntas ao oráculo, em cada uma delas o tempo mostrou que sua resposta estava correta. Não que me baseie apenas nas respostas do oráculo. Busco sua opinião da mesma forma que busco a opinião do meu Gabinete e da mesma forma busco opinião da minha própria consciência. Somos muito próximos, quase amigos –  finaliza Sua Santidade O Dalai Lama.

Para quem quer saber mais, no maravilhoso filme “Kundun” de Martin Scorcese aparece algumas cenas do transe da divina criatura.

Arthur Veríssimo Jornalista, apresentador, palestrante e peregrino. arverissimo@gmail.com / Instagram - @verissimoarthur
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1 Comentario(s)

Rafael Farias disse:

Legqal o texto.

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