Em um dos trechos mais bonitos de seu livro “Diário do Grande Sertão”, em que registra suas reflexões durante as gravações da minissérie “Grande Sertão: Veredas”, Bruna Lombardi escreve: “a cidade deixa as pessoas multipartidas, divididas. Tanta interferência. Solicitações, telefonemas, convites, eventos, festas, amigos, trânsito, trabalho, horário, famílias, parentes, pessoas, informações, conversas, flores, telegramas, jornais, compromissos, vitrines, propostas, notícias. Uma roda de acontecimentos nos atropela, interrompe, tira do centro. Em busca do quê? Uma fugaz ideia de sucesso, uma tolice coletiva. O sertão redimensiona o espaço e o tempo. Faz a gente conviver com a própria essência. A inteireza. O eixo. O foco. O exercício de ser uma pessoa. Uma pessoa.”
Ao fim de cada ano, geralmente refletimos sobre o que passou e fazemos um balanço do nosso ano, entrando um pouco no modo Eremita de ser, tão bem retratado no trecho citado acima. Buscar a nossa essência, a inteireza e o eixo no meio do barulho do mundo é o exercício diário do Eremita e deveria ser um exercício diário para todos nós.
Os 22 arcanos maiores do tarô representam a jornada evolutiva do Louco, o viajante arquetípico. Nesta etapa de sua jornada, o Louco amadureceu e começa a buscar um sentido mais profundo para a vida. O sucesso material atingido nas etapas anteriores não foi suficiente para lhe satisfazer. Cansado da disputa por dinheiro e poder, o Louco quer mais, muito mais: quer descobrir sua verdadeira missão e seu propósito nesta vida. Descobrir quem é, de onde veio e para onde vai. Essas grandes questões da vida não se descobrem na correria da luta mundana, mas fazendo um profundo e silencioso mergulho em nosso interior. Saber quem somos e qual é o nosso propósito nos permitirão avançar rumo à realização plena da carta do Mundo.
Os japoneses têm uma filosofia chamada Ikigai, que significa “razão para viver”. Todos têm o seu ikigai e descobri-lo requer uma intensa busca interior. O ikigai é baseado em um diagrama que possui quatro áreas: o que amo fazer; o que faço bem feito; o que o mundo precisa; o que te remunera. Encontrar um objetivo que esteja na intersecção dessas quatro áreas contribui para uma vida plena e feliz. As duas primeiras dependem de nós; as duas últimas, não.
Romper com o padrão do que é considerado “ser um sucesso” na sociedade – geralmente acumular bens, dinheiro e poder – requer muita Força, e isso o Louco já encontrou no arcano anterior. Essa Força lhe permitirá nadar contra a corrente e rejeitar passar a vida inteira satisfazendo-se apenas com os prazeres que o mundo material pode proporcionar ao seu Ego.
A introspecção é, portanto, a principal característica – e o principal convite – deste arcano. Para refletir, não é preciso isolar-se fisicamente do mundo, como alertou Marco Aurélio há mais de 2 mil anos, em seu clássico “Meditações”: “aquele que filosofa sabe que está em seu poder a decisão de retirar-se para dentro de si mesmo. Pois não há local mais pleno de tranquilidade e liberdade do que a própria alma de um homem, quando retirada do turbilhão mundano, particularmente naquele homem que carrega dentro de si tal sorte de pensamentos que, quando tem a possibilidade de contemplá-los, encontra imediatamente a plena serenidade.”
Que nós possamos encontrar a plena serenidade do Eremita, não só neste fim de ano, mas em todos os dias da vida!
Talita Cardoso Lima
Diplomata e taróloga. Usa o tarô para autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. www.tarotdiario.com.br / @tarotdiarioblog
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Excelente! Estar conectado consigo mesmo te faz encontrar o eixo , a cerne que conduz tua vida . E assim , valorizar a vida e dar a resposta daquilo que a vida espera de ti .
Perfeito! Amei.
🤗 amei esse artigo exatamente nesse período estou passando querendo mergulhar dentro de mim pra renascer novamente buscando autoconhecimento.
Excelente!