O sexo das mulheres maduras

As mulheres são ao mesmo tempo únicas e plurais, seus desejos e comportamentos sexuais também.

Recentemente uma jornalista me perguntou sobre “O sexo das mulheres maduras”. Estranhei quando ela disse que eu tenho um “lugar de fala”, que sou uma “porta-voz, representante e símbolo das mulheres maduras”. A primeira imagem que me veio à mente foi a de uma fruta prestes a cair da árvore, que precisa ser comida logo, pois está na iminência de estragar, apodrecer, envelhecer, ser descartada e jogada no lixo.

Eu me senti desconfortável pois não tenho “lugar de fala” nem sou “porta-voz” de ninguém. Como antropóloga, preciso exercer um certo distanciamento para observar e compreender a realidade que pesquiso. Apesar de ser classificada como uma “mulher madura”, sou apenas uma mulher, independentemente da idade que eu tenho, que escreve sobre os caminhos de libertação para todas as mulheres. Mais importante ainda, as mulheres têm a sua própria voz e não precisam de “porta-voz” para expressar seus desejos, medos e insatisfações. Por fim, não acredito que ter mais idade é sinônimo de maturidade.

A minha coluna de maior sucesso na Folha de S. Paulo é “O sexo das mulheres mais velhas”, com mais de 600 mil visualizações no site do jornal. O que escrevi nela vale para “mulheres maduras” e também para mulheres de todas as idades. Existem mulheres que sempre gostaram de sexo e procuram todos os recursos disponíveis no mercado para continuarem tendo prazer na cama. Algumas que já fizeram muito sexo no passado, mas que hoje não querem mais.

Outras que usam a velhice como desculpa, pois acham que já cumpriram com suas “obrigações conjugais e sexuais”.

Muitas que querem continuar tendo uma vida sexual prazerosa, mas não com o atual parceiro. Aquelas que têm uma vida sexual intensa fora do casamento. Inúmeras que gostam do sexo virtual, que se masturbam, que preferem o vibrador. Mulheres que tiveram muitos parceiros ou apenas um, as que são infiéis ou foram traídas, as que nunca tiveram um orgasmo ou aquelas que têm orgasmos múltiplos e tantas outras.

Há mais de trinta anos pesquiso mulheres que se sentem prisioneiras de modelos de sexualidade e que lutam para se libertar dos preconceitos sobre o que é ser uma “mulher livre”.

Existe uma enorme diversidade de desejos e comportamentos entre as mulheres. Após a revolução sexual do século XX, será que ainda é possível rotular e aprisionar as escolhas femininas?

 

Antropóloga, professora da UFRJ e autora de “Liberdade, felicidade e foda-se!”.

Mirian Goldenberg Antropóloga e pesquisadora sobre envelhecimento e felicidade - miriangoldenberg@uol.com.br

 

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2 Comentario(s)

Marisa disse:

Oi querida Mirian, tenho 61 anos e a uns 4 anos falei com você, que estava namorando um homem muito mais novo, eu e você conversamos,a maioria sempre achou que isso não daria certo, Estamos juntos a 4 anos e moramos juntos é tudo continua perfeito, inclusive o sexo.
Creio que a diferenças para as mulheres mais nova seja a frequência do sexo,talvez porque nós mais velha tenha muitas responsabilidade, trabalham mais e prefiram o sexo de forma diferente, meu prazer não está só no ato sexual mas na companhia, na atenção,na conversa nos risos, compartilhar a vida, é o sexo físico
Esse vai otimamente bem tambem
Bjus querida
Marisa Silva

Ana Maria de Carvalho disse:

Adorei o texto. Vou completar 60 anos em julho. Hoje cedo, vindo para o trabalho, estava pensando. Desde os 14 anos, quando comecei namorar, ou eu estava sofrendo por estar com alguém, ou deixando alguém, ou sendo deixada por alguém, ou me apaixonando por alguém, ou fazendo linda festa de casamento ou chorando com a assinatura do divórcio. Casei e divorciei duas vezes. Agora eu não quero mais me relacionar afetivamente com ninguém. Estou aprendendo a pensar em me servir, em cozinhar o meu prato predileto, ficar com o controle remoto na mão, usar todos os travesseiros da cama. Estou me adaptando muito bem. Nem sempre fui assim, eu ficava sozinha e acabava em desespero, cheguei até a ter namorados que não tinham nada a ver comigo somente para não ficar sozinha, mas me sentia só. Agora não sinto mais.

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