Havana

Fui três vezes pra Havana. Todas as três em ocasiões de um momento histórico emblemático. Na primeira, fomos o Ri e eu, para o Festival de Cinema, que é bem conhecido no mundo. Participamos com um filme que fizemos nos Estados Unidos, chamado Best Revenge. Viajamos com um grupo ótimo, do qual faziam parte o produtor de cinema Lawrence Bender e o excelente diretor de cinema e artista plástico Julian Schnabel. Conheci a escola de Cinema e fiquei amiga do extraordinário escritor Gabriel Garcia Marques. E sou super fã do excelente diretor cubano de cinema, Tomás Gutierrez Alea. Ficamos no famoso Hotel Nacional, por onde passaram as maiores celebridades do planeta e que mantém sua aura dos anos 50. Como aliás toda a cidade. O país atravessava uma das suas maiores crises, depois do corte de fornecimento da União Soviética, havia uma escassez total. Como a nossa visita era oficial, isso não era perceptível, porque no hotel, não faltavam mantimentos. Mas é claro que saímos clandestinos pela cidade, conhecendo os artistas e o povo e descobrindo lugares novos. Os cubanos são pessoas maravilhosas, muito simpáticas e com a mesma energia dos brasileiros. Talvez seja o povo mais parecido com o nosso. Mesmo num sistema tão diferente. Como faltava tudo, eu levava tudo o que podia do hotel e distribuía na rua, uma alegria pra todos, que estavam tão carentes de mantimentos. Conheci muita gente legal e fiz muitos amigos. E para documentar essa cidade incrível, aproveitamos e fizemos um dos meus programas Gente de Expressão.

Na segunda vez que visitamos Cuba, também fomos pro festival de Cinema, onde o Ri foi indicado para o premio de melhor ator, com o filme Trago Comigo. Os cubanos adoram o Ri desde o sucesso da novela Vale Tudo, e onde quer que ele vá é sempre festejado. Dessa vez havia mais fartura e novos restaurantes começavam a abrir, com uma nova proposta de modernidade. Mas a cidade continuava com sua aura anos 50, como se tivesse parado no tempo. Com a maioria das construções em ruínas, o famoso Malecon, que acompanha a costa e o mar de Havana, muitas vezes tinha um aspecto de uma cidade pós guerra, com os seus edifícios danificados, mas tudo isso dando uma singular beleza. 

Pelas ruas, pouquíssimo comércio, e como não se importavam carros, e mesmo os Lada russos pararam de vir, todos os automóveis eram anos 50, ou até mesmo anteriores e circulavam pela cidade. E mesmo sem peças pra reposição, provando que os cubanos, por força das circunstâncias, se tornaram os melhores mecânicos do mundo, fazendo carros com mais de sessenta anos, rodarem perfeitamente, usando peças de aparelhos domésticos adaptadas. Andar pela cidade parecia uma viagem no tempo. Dessa vez conheci o irmão de Fidel, e um dos seus filhos, o Fidelito, em uma recepção oficial. Desde a primeira vez percebi que nada faltava aos poderosos, mesmo que tudo faltasse ao povo. Como aliás acontece em tantos lugares, independente do regime. Havia uma clara divisão de riquezas, com supermercados populares com as prateleiras semi vazias e supermercados oficiais, proibitivos para o povo, e lotados de mercadorias. Com uma amiga querida que mora em Havana, descobrimos restaurantes antigos e tradicionais e também alguns novos, deliciosos e criativos. E a força da arte cubana, nos museus, galerias e nos estúdios. O que ficou claro nas duas viagens, foi a fantástica solidariedade do povo cubano, onde havia tão pouco pra repartir e mesmo assim, todos se ajudavam. A carência era tamanha, que no aeroporto, no duty free, produtos de luxo eram coisas de primeira necessidade, como pasta dental, papel higiênico e algodão. O que foi emblemático dessa vez é que no dia em que deixamos Havana, o presidente Obama fechava um novo acordo de abertura com o país. 

Na terceira vez, Havana definitivamente tinha mudado. Com a morte de Fidel e a abertura para o mundo, o turismo aumentou consideravelmente. E tudo o que era parte do folclore anos 50 por necessidade absoluta, se tornou agora um cartão postal, um retrato de uma história que preservou o que pôde e fez milagres de sobrevivência, mantendo um espírito forte e feliz. A música cubana, que sempre foi fortíssima, agora se tornou uma enorme atração e um produto de exportação, junto com os famosos charutos e sua arte, que tem uma personalidade muito marcante. Dessa vez fomos com amigos queridos, conhecer todos os museus, galerias, estúdios e casas dos artistas plásticos, que deram a nova cara de Cuba para o mundo. Os cadillacs conversíveis, assim como todos os carros americanos da década de 50, continuam rodando, agora como divertidos taxis, em cores espalhafatosas, dando humor e vibração às ruas da cidade. Aliás, a cidade é linda. Com suas velhas construções, algumas, aos poucos, sendo reconstituídas. Com suas avenidas largas, um belo planejamento, pouquíssimo trânsito e muitos parques. Havana é única, assim como sua história. Um povo que sobreviveu e superou muitas fases e crises, com a capacidade de continuar íntegro, e manteve valores e dignidade. Um orgulho de ser cubano e ter atravessado e superado tantos desafios. Uma lição de resiliência. De saber se reinventar sem perder a sua essência.

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9 Comentario(s)

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Eduardo Renato Lara disse:

Excelente texto,fiz uma viagem imaginária.Realmente o povo cubano e sofrido por culpa desse regime ditatorial,mas e um povo Alegre e solidário,amo a música cubana,tive contato com pessoas de cuba.beijo para elas e para você,continue linda e maravilhosa.

MARIA SUELI disse:

Tenho um enorme.carinho por vc Bruna vc sempre foi minha inspiração continua linda de viver.bju

Luís Paulo da Silva Santos disse:

A minha maior felicidade é poder estar em contato com uma mulher tão linda e maravilhosa como vc, eu sou e sempre fui apaixonado por vc minha Bruna bjs.

Wilma disse:

Fiz uma viagem pra lá agora. Obrigada

Marialva disse:

Gostei muito do texto, parece que viajei com você. Mas fiquei triste por constatar que eles sofrem por conta desse regime ditatorial.Que o povo cubano seja livre.bjs, as fotos ficaram ótimas.

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