O sexo me ensina

Todo tipo de prazer, descoberta e afeto, são muito bem vindos para contrabalancear aqueles momentos em que a vida parece sambar de salto plataforma na nossa cara. Porém, a quantidade de matérias que lemos nos diferentes veículos também refletem a tardia democratização do prazer feminino. A maioria dos conteúdos, estão na internet em revistas de comportamento masculinas e femininas, e oferecem dicas técnicas de como dar prazer ao parceiro (a). Do lado feminino sabemos que durante muito tempo, as mulheres foram oprimidas, subjugadas e cerceadas de muita coisa, dentre elas, o prazer de fazer sexo de forma livre e sem culpa, e receber prazer parece ter ficado por muito tempo em segundo plano. Talvez por conta disso, essa mesma internet, diz que somente 25% das mulheres brasileiras atingem o orgasmo; e grande parte disso, deve-se ao peso cultural do papel que a mulher foi colocada na sociedade. A descoberta do prazer, algo tão bonito e importante no desenvolvimento humano, foi carregado de sentimentos obscuros e manipulado por dominantes moralistas e antiéticos.

Vejo o movimento feminista com profunda admiração. Meu pai, morreu poucos meses depois do meu nascimento. Não tive avô, nem tios. Cresci olhando o mundo pelo ponto de vista da minha mãe. Também por ela, tive algumas referências masculinas pífias, no estilo de homem que tem aos montes por aí, bunda mole na rua e machão em casa. De certa forma, trago em meu tempero uma bela porcentagem do feminino, e essa energia me faz forte. Tentarei aqui refletir sobre a troca, independente do gênero.

Antes de tudo, sinto nesses textos, que o grande objetivo é realizar uma sequência de movimentos para alcançar o prazer da parceira (o). É demais dar prazer, dar a alguém pelo mínimo de tempo que seja, a possibilidade de alcançar um estado de espírito tão rico e subjetivo como esse.

Na minha humilde vida sexual, penso no sexo como um grande exercício de presença. Ou você está ali de corpo e alma, ou a sensação de deslocamento vai te roubar desse momento de troca tão rico. Essa necessidade de corresponder à expectativa do que você imagina que seja uma pessoa tesuda, de levar o parceiro (a) ao orgasmo antes mesmo de sentir a sua respiração, faz com que o sexo – pelo menos para mim- deixe de ser brincante e seja encarado como um #treinopesado de Crossfit. Daqui a pouco, vão inventar um whey protein after sex.

A busca pelo gozo, por incrível que pareça te tira da ação presente da troca sexual, da troca. Se tirarmos o orgasmo da meta principal, talvez sem essa pressão ele tenha mais espaço para fluir. As matérias com esses temas estão aí e as descobertas também. Corpos são únicos, diferentes. As zonas erógenas estão conectadas ao sistema nervoso central e são subjetivas em cada um. Olhar o órgão sexual da parceira (o), perceber a textura, gosto, que sentimentos provocam? Botar as partes do corpo para dançar juntas, seja um rock ‘n roll, chá chá chá ou baladinha lenta. Quem dita as ordens do sexo são os bailarinos dele. O sexo me ensina muito. Ensina a perceber o corpo, exercitar a gentileza, a ver como a agressividade se bem canalizada pode ser positiva. Pode te conectar com seu lado bicho, terreno e isso nos integra à natureza. Pode nos ajudar a pensar menos e ser somente aquilo que podemos, sem querer ou dever. O sexo é tão mágico que gera vida (claro, sem pressões. Se você, mulher, estiver a fim).

Tento ir para o sexo, não com a ideia de consumo de quem quer comprar o novo iphone 12, mas sim, com a coragem, o respeito e desejo de quem mergulha no fundo do mar.

BRUNO KOTT Ator e diretor brunokott@gmail.com
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5 Comentario(s)

Caetano O’Maihlan disse:

Muito bom cara, parecia que estava escrevendo o texto enquanto ele me lia

Carmem disse:

Muito bom ler essas palavras, principalmente quando entramos na menopausa, fase difícil na vida da mulher .

Selma Regina dos Santos Furian disse:

Delicia de ler esse texto, a realidade deveria ser exatamente assim.

Diana disse:

Que lindo texto.
Te admiro muito.
Gratidão

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